iceranto.dev / log

Construindo um MicroSaaS com IA: minha experiência com o Linklystics

Motivação

Queria validar na prática até onde ferramentas de IA conseguem acelerar a criação de um produto real — sem gastar semanas em setup, arquitetura ou decisões de stack.

A ideia era simples: construir um MicroSaaS funcional, com potencial de uso real, e ver o que aparecia no caminho. Foi assim que surgiu o Linklystics.

👉 https://linklystics.com/

O que foi construído

O Linklystics é uma plataforma de centralização e rastreamento de links, voltada para quem trabalha com link na bio, campanhas ou programas de afiliados.

A proposta central: entender quais links performam melhor, medir engajamento e tomar decisões baseadas em dados — em vez de operar no escuro.

A distinção que mais importou durante a concepção:

  • ❌ Encurtador de link
  • ✅ Plataforma de análise de performance de links

Evitar o genérico foi o desafio mais real do projeto.

Stack e abordagem

O projeto foi construído com Lovable — uma ferramenta de desenvolvimento assistido por IA que combina geração de frontend, backend e lógica de produto em ciclos rápidos.

O ganho imediato foi sair do modo “preciso configurar tudo antes de começar” e entrar no modo “o que precisa funcionar hoje?”. O resultado foi um MVP publicado e funcional em poucos dias, com iteração baseada em uso real desde o início.

Aprendizados

Problema vem antes da tecnologia

A escolha de stack costuma dominar as primeiras horas de um projeto novo. Nesse experimento, ela foi deliberadamente ignorada. O foco foi: existe um problema real aqui? Alguém pagaria por isso? A tecnologia foi consequência, não ponto de partida.

Velocidade é vantagem competitiva

Com IA no processo, o ciclo ideia → MVP → feedback comprime de semanas para dias. Isso muda a lógica de validação: em vez de apostar meses num produto que pode não ter aderência, é possível testar, errar e ajustar com custo baixo.

Produto é mais importante que código

O valor entregue ao usuário não depende da elegância da arquitetura. Depende de utilidade, clareza de proposta e facilidade de uso. Código bem escrito importa — mas vem depois de saber o que construir.

O custo oculto dos prompts técnicos

Uma percepção que ficou durante o processo: quanto mais técnico e detalhado o prompt, maior o consumo de tokens. Em ferramentas como o Lovable, isso se traduz em uma pressão real — a sensação de que o plano vai acabar antes do produto ficar pronto.

Não tenho clareza total sobre como a economia de tokens funciona internamente nessas plataformas, mas a percepção prática foi clara: prompts mais específicos e estruturados consomem significativamente mais do que prompts simples, o que cria uma tensão entre qualidade técnica da instrução e o limite do plano contratado.

Lovable é uma ferramenta para não-técnicos — e isso tem um preço

Antes de falar sobre minha experiência, vale contextualizar o cenário: o conceito de vibe coding — desenvolver produtos guiado por prompts e intuição, sem necessariamente entender o que está sendo gerado — está em alta. Vale assistir esse vídeo que aborda bem essa tendência:

👉 https://youtu.be/4DzMbBYXa7M

Depois de usar o Lovable, ficou evidente para quem é o produto: pessoas sem background técnico, que querem ver algo funcionar na tela com o menor atrito possível.

O problema é que esse posicionamento tem consequências que o usuário leigo dificilmente percebe:

  • A IA prioriza aparência e experiência visual — telas bonitas, fluxos que impressionam
  • Questões como segurança, estabilidade e boas práticas de arquitetura ficam em segundo plano
  • O token é gasto em fazer o produto parecer completo, não necessariamente em fazê-lo ser sólido

Para quem tem conhecimento técnico, essa lacuna aparece cedo. Para quem não tem, o produto parece ótimo — até o momento em que algo quebra em produção ou uma vulnerabilidade aparece.

Lovable entrega satisfação imediata. Entregar um produto confiável é responsabilidade de quem o está construindo.

Vulnerabilidade encontrada em aplicação gerada pelo Lovable

Para além da percepção subjetiva, fiz um teste prático de segurança em uma aplicação construída via vibe coding na plataforma Lovable. O resultado foi direto ao ponto.

Ausência de Content-Security-Policy (CSP)

A aplicação não implementava nenhum cabeçalho Content-Security-Policy.

O CSP é o mecanismo primário de defesa em profundidade contra ataques de Cross-Site Scripting (XSS) e injeção de conteúdo. Sua ausência significa que qualquer conteúdo — scripts, frames, estilos, imagens — pode ser carregado de qualquer origem pelo navegador da vítima, sem restrição alguma.

Na prática, isso abre espaço para:

VetorImpacto
XSS refletido ou armazenadoExecução de scripts maliciosos no contexto do usuário autenticado
Injeção de frames externosClickjacking e roubo de credenciais
Carregamento de scripts de terceirosExfiltração de dados sem rastreamento
Injeção de estilosManipulação visual da interface para engenharia social

Esse tipo de vulnerabilidade não é difícil de mitigar — um cabeçalho HTTP bem configurado resolve. Mas exige que o desenvolvedor saiba que ela existe, entenda o risco e tome a decisão de implementar. Uma IA focada em entregar telas funcionais rapidamente não vai fazer esse julgamento sozinha.

Código que passa no olho não é código seguro. Aparência de produto não é segurança de produto.

Status atual

ItemStatus
MVPPublicado e funcional
ValidaçãoEm andamento
EvoluçãoBaseada em uso real

Próximos passos

  • Refinar UX com base nos primeiros usuários
  • Adicionar métricas mais avançadas de engajamento
  • Explorar modelo de monetização

Conclusão

Esse experimento deixou duas coisas claras:

Nunca foi tão rápido criar um produto digital.

Saber o que construir continua sendo mais difícil — e mais importante — do que saber como construir.

E uma terceira, que ficou evidente no teste de segurança:

Velocidade sem consciência técnica produz produtos frágeis com boa aparência.